E-Books versus Livros Impressos


É o boom do e-book. A Amazon, a livraria online mais visitada do mundo, já vende mais livros eletrônicos do que tradicionais. “Nos últimos três meses, para cada 100 livros impressos vendidos, a Amazon vendeu 143 na versão digital”.

O fenômeno do e-book da Amazon é veemente se observarmos que o catálogo do Kindle [leitor de livros eletrônicos] inclui só 630.000 livros, uma quantia mínima dos títulos disponíveis na Amazon.

A reportagem é de Claire Cain Miller, publicada no jornal La Repubblica, 21-07-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Segunda-feira foi um dia memorável na história dos livros, se é que ainda existirão no futuro. A Amazon.com – a principal loja norte-americana de livros online – anunciou que, nos últimos três meses, as vendas de livros para o Kindle superaram a venda dos livros de papel impresso.

Nesse trimestre, a Amazon disse ter vendido 143 livros Kindle a cada 100 livros impressos, incluindo os livros para os quais não existe a versão suportada pelo leitor eletrônico. Segundo as declarações da Amazon, o ritmo acelerado dessa transformação também é notável: apenas nas últimas quatro semanas, as vendas subiram, fazendo com que se registrasse uma relação de 180 livros digitais vendidos a cada 100 cópias em papel. A Amazon já coloca à venda 630.000 livros legíveis no Kindle, um pequeno porcentual, no entanto, dos milhões de livros que ela vende em seu site.

Os bibliófilos que deploram a queda das vendas de livros impressos deveriam fazer as contas com a realidade e se tornar pragmáticos: a afirmação é de Mike Shatzkin, fundador e diretor-executivo da Idea Logical Co., que presta consultoria aos editores acerca das transformações digitais. Shatzkin prevê que, dentro de 10 anos no máximo, menos de 25% de todos os livros serão vendidos em edições impressas.

A mudança, segundo a Amazon, é “impressionante, se considerarmos que vendemos livros há 15 anos, e o Kindle há apenas 33 meses”, declarou o diretor-executivo Jeffrey P. Bezos.

Porém, os livros impressos não desapareceram. As vendas do setor registraram um aumento de 22% neste ano, segundo a Associação dos Editores Norte-Americanos. Nesse número, não estão, naturalmente, os livros Kindle, 1,8 milhão dos quais foram publicados antes de 1923 (e que, como o copyright expirou, são de domínio público). A Amazon não indicou, em todo o caso, a relação entre as vendas de livros em edição econômica e os e-books, mas se considera que os primeiros ainda superam os segundos.

Segundo Shatzkin, a grande surpresa se deve ao fato de que a passagem ocorreu justamente no período em que o Kindle teve que enfrentar uma séria ameaça do ponto de vista da concorrência: o Apple iPad – colocado no comércio desde abril – é vendido como um dispositivo de leitura, cujos livros são adquiridos em sua própria e-book store. As vendas do Kindle cresceram de mês em mês durante todo o trimestre, confirma a Amazon. O sucesso do Kindle se deve ao fato de que se registra uma verdadeira explosão de vendas em todo o setor dos e-books.

Segundo a Associação dos Editores Norte-Americanos, as vendas de e-books até o final de maio deste ano teriam quadruplicado. Um dos motivos pelos quais as vendas de livros Kindle aumentaram é que os proprietários do iPad e de outros dispositivos portáteis de leitura compram livros Kindle, que podem ler em seus computadores, iPhone, iPad, BlackBerry e celulares Android. Pelo contrário, exceto os livros gratuitos isentos de direitos autorais, os proprietários do Kindle tem que comprar ou baixar os conteúdos desejados apenas por meio da Amazon. “Toda vez que vendem um Kindle, eles prendem o consumidor”, explicou Shatzkin.

A taxa de crescimento das vendas do Kindle triplicou desde que a Amazon diminuiu o preço do leitor, fazendo-o passar de 259 dólares para 189, pouco depois que a Barnes&Nobles havia reduzido o preço do seu leitor Nook de 259 dólares para 199. Mais ou menos no mesmo período, a Apple vendeu três milhões de iPads. Segundo os analistas, o anúncio da Amazon poderia mitigar as preocupações dos investidores, ligados ao fato de que o iPad ameaça as vendas do Kindle. O preço das ações da Amazon caiu 16% nos últimos três meses, em parte justamente por causa desses temores.

Aaron Kessler, diretor da “Internet and digital media equity research” para a ThinkEquity, disse: “As preocupações com as vendas do iPad e ligadas ao fato de que a Amazon poderia perder cotas de mercado no setor de livros se refletiram negativamente sobre as ações”.