Como Será o Jornalismo do Futuro?


Redação do DIARIODEPERNAMBUCO.COM.BR
13/06/2011 | 14h12 | Entrevista


Numa época em que ecoam profecias de que o jornal impresso está condenado ao fim, um especialista em jornalismo digital percorre o mundo dizendo exatamente o contrário. Em vez de morrer o jornal vai adaptar-se, diz ele - em outras épocas dizer isso seria a consagração do óbvio, mas nos dias de hoje soa como alguém teimando em remar contra a maré.
Pois é exatamente o que faz o espanhol Ramón Salaverría, uma das maiores autoridades do mundo em web jornalismo.
Nem o jornal vai acabar nem muito menos haverá no futuro um jornalismo sem jornalista, diz ele, acrescentando ainda que “o verdadeiro jornalismo online chegará no momento em que a informação for apurada diretamente no lugar onde acontece” - ou seja, na rua, fora da redação.
Salaverría defende mudanças profundas na estrutura das empresas e na mentalidade dos jornalistas, para enfrentarem “o desafio de fazer jornalismo do século 21” - multimídia, convergente.
Diretor do Laboratório Multimídia e professor da Universidade de Navarra (Espanha), ele já deu cursos e seminários em 16 países e é professor convidado de programas de pós-graduação na América Latina e Europa. Escreveu livros que se tornaram referência no estudo do jornalismo, como Periodismo integrado (2008), Cibermedios (2005), Redacción periodística en internet (2005) e Manual de redacción ciberperiodística (2003).
Nos últimos anos ele tem falado principalmente sobre convergência de mídias - o encontro do impresso com o digital. Salaverría esteve no Recife no último dia 6, quando deu palestra para profissionais dos Diários Associados, no auditório do Diário de Pernambuco. Nesta segunda e terça-feira ele participa em São Paulo do Seminário de Mídias Móveis, promovido pelo Instituto Internacional de Ciências Sociais (IICS).
É também um dos professores do Máster em Jornalismo Digital, promovido pelo IICS em parceria com a Universidade de Navarra, que começa em julho próximo, em São Paulo (www.masteremjornalismo.org.br).
Nessa entrevista ele revela que, superada a primeira convergência (das mídias), vem aí uma segunda convergência, tão necessária quanto a primeira: aquela em que profissionais mais experientes devem combinar sua experiência com o potencial dos jovens formados já no ambiente das novas tecnologias: “A empresa que conseguir isso será imbatível”.

Confira a entrevista:

“Empresas devem mudar para fazer jornalismo do século 21.”

Alguns estudiosos têm profetizado o fim do jornal impresso. Philip Meyer, dos EUA, disse que isso acontecerá em 2043; Nicholas Negroponte, também dos EUA, é mais pessimista, fala em 2015. São pesquisadores conceituados. Como encarar essas previsões?

O que tenho dito é que o jornal não vai acabar, mas adaptar-se, como tem acontecido com os meios na história do jornalismo. Os que falam no fim do jornal têm uma certa intenção de fazer uma provocação, gerar um debate. Mas creio que não existe rigor nessas previsões. Quando você lhes pergunta quais são os dados que eles têm para sustentar essa afirmação, eles dizem que é a impressão deles… Ora, se é impressão, eu também tenho uma, e é contrária a deles. Veja, estamos em 2011, já houve quem dissesse que o jornal iria acabar antes disso. O Negroponte diz que será em 2015. Faltam quatro anos. Vamos aguardar (risos).

Mas o fato de o faturamento da publicidade estar crescendo mais na mídia digital que na impressa não é um fator preocupante?

Mais que preocupante, é desestabilizante, eu diria. O faturamento da publicidade é o fator que determina basicamente qual é a mídia que assume a liderança na empresa jornalística. Se uma mídia começa a reduzir muito o seu faturamento, e em outra o faturamento vai aumentando, a relevância desta vai crescer muito. O que está acontecendo é uma mudança gravitatória. Anteriormente havia uma mídia hegemônica, que era a impressa, em torno da qual orbitava o resto das mídias menores. Agora o que está acontecendo é que esta mídia central, o jornal impresso, está cedendo protagonismo a uma outra mídia, a digital. Isso não significa que o jornal impresso vai desaparecer, mas sim que no futuro ele pode perder a hegemonia que detinha.

Se o senhor fosse chamado para montar um jornal hoje, defenderia um que circulasse apenas dois ou três dias da semana, como já propõem alguns teóricos, ou que circulasse os sete dias da semana?

No Brasil, onde há um mercado de leitores que ainda pode crescer, eu defenderia um jornal com circulação durante os sete dias da semana. Mas em países onde a situação está mais complicada para os jornais impressos, como a Espanha, eu defenderia um que circulasse sexta-feira, sábado e domingo. Na Espanha a audiência online é muito alta durante a semana, mas baixa no fim de semana. No meio da semana as pessoas acessam a informação no trabalho, e não têm tanta necessidade de comprar um jornal. Durante a semana você está fornecendo conteúdo de última hora, e nesse período as pessoas estão muito mais interessadas nesse tipo de informação; no fim de semana as coisas vão um pouco mais devagar; é quando cresce a procura pelos jornais.

Como deve ser a formação dos jornalistas nesses tempos de mudança? Mais técnica?

Creio que há três pontos fundamentais: primeiro, formação humanista. Conhecimento de literatura, história, economia, política, sociologia. Para entender, interpretar e criticar o mundo. Quem não tiver uma formação assim, não tem o que dizer; segundo, conhecimento do meio jornalístico, da cultura profissional, da evolução de tendências na área, da narrativa jornalística; e terceiro, a qualificação prática. Cada um desses pontos vem depois do outro. É preciso também que o novo jornalista esteja atento ao valor crescente do público como elemento interativo do seu trabalho. Antes os jornalistas elaboravam conteúdo e colocavam para o público. Agora o público também contribui e participa na criação do conteúdo. Este é um elemento que o jornalista deve incorporar à sua lógica de trabalho. Além do uso das novas tecnologias, claro.

Uma discussão forte entre nós é sobre o repórter que não sai mais da redação e apura tudo pelo telefone e pelo computador…

Minha tese nesse sentido é que o jornalismo online está ainda em uma situação de imaturidade. No começo desse jornalismo, em meados dos anos 90, os conteúdos das mídias digitais eram uma reprodução literal do conteúdo de mídias preexistentes, basicamente do jornal impresso. Depois, nesta primeira década do século 21, o que aconteceu foi que a esse elemento de conteúdo se somou a reprodução de informação de último momento, que tem origem nas agências, na TV, que tem algo de apuração pelo telefone. Mas não tem rua, não tem rua. Na minha opinião o verdadeiro jornalismo online chegará no momento em que a informação seja apurada diretamente no lugar onde acontece.

Qual a experiência mais bem sucedida de jornal que fez convergência das mídias impressa e digital?

O Daily Telegraph (Londres) é um caso de referência mundial. Porque eles fizeram a planificação mais científica. E fizeram de um jeito muito profissional. Todos os jornalistas - todos mesmo - tiveram que passar por um processo de treinamento quase militar. Houve capacitação feita por profissionais do próprio jornal e de fora. Além disso, os jornalistas do jornal impresso passaram um tempo trabalhando na área digital e vice-versa. Durante o processo a empresa falou o seguinte: ‘Olha, nós fizemos uma aposta, nós vamos mudar o modelo do jornal, nossos objetivos são estes. Todo mundo está convidado. Todo mundo vai ser treinado’. Aí ninguém pode falar: ‘Ah, eu não sei fazer isto ou aquilo’. Se alguém não quisesse participar do projeto, as portas estavam abertas para sair. Houve pessoas que não quiseram, e saíram.

Convergência de mídias sempre implica redução de pessoal na empresa?

Isso não é convergência. É cost- cutting (redução de custos). Às vezes tem empresários que apresentam cost-cutting como projeto de convergência. Mas não é. O projeto de convergência é coisa completamente distinta. É um projeto para uma empresa jornalística de hoje converter-se numa empresa informativa do século 21. Isso significa buscar novos mercados, novas formas de trabalho. Às vezes, evidentemente, tem algum pessoal de umas áreas que perde espaço, mas isso é compensado pela criação de novos postos, novas áreas.

Depois dessa etapa, qual o próximo desafio?

Creio que nós teremos uma segunda convergência, que consiste não tanto numa reformulação espacial ou instrumental da empresa jornalística, mas uma reformulação cultural do jornalista. Trata-se da convergência entre a qualificação profissional que os jornalistas mais velhos têm combinada com o potencial das tecnologias digitais. Eu acho que a empresa que conseguir combinar esses dois elementos será imbatível. Vai juntar a qualidade de jornalistas mais experientes com a do jornalista mais jovem formado nesses novos tempos de jornalismo digital.

Como o senhor vê a imprensa brasileira, comparada com a internacional?

Do ponto de vista de negócios, vocês estão numa situação bem melhor do que a de outros países, porque aqui há um grande potencial de criação de novos leitores com a ascensão da classe C. Mas do ponto de vista do jornalismo, eu vejo que alguns jornais do Brasil têm uma valentia, uma certa criatividade que está além da média. Eu comparo as manchetes feitas aqui em muitos jornais, com as dos jornais espanhóis, por exemplo, e acho as daqui mais vivas, mais inteligentes. Mas, conjuntamente com isso, eu acho que no Brasil predomina um jornalismo muito voltado à notícia, porém às vezes pouco aprofundado, ressentindo-se de um pouco mais de maturação das matérias. Você pega alguns jornais daqui e vê ‘notícia, notícia, notícia, entrevista, notícia, notícia, notícia’. Mas aquela reportagem bem trabalhada, aprofundada, não é muito comum.

Por Vandeck Santiago