LEITURA E COMPREENSÃO DE TEXTOS

COM OS DOIS HEMISFÉRIOS CEREBRAIS


              
Quando lemos qualquer texto, (artigos, crônicas, contos, poesias), nos valemos dos dois hemisférios cerebrais, para fazer a decodificação neurolingüística necessária à sua assimilação e compreensão.
A leitura, conquanto pareça uma tarefa simples, na verdade trata-se de um ato complexo, envolvendo várias atividades simultâneas, que se processam em nano-segundos, nas trocas bioquímicas e de descargas elétricas entre a coleção de neurônios.
Enquanto que o hemisfério esquerdo rastreia os sinais codificados pela escrita, conferindo a validade de seus aspectos formais, o hemisfério direito por seu lado viaja no conteúdo e nas idéias, criando imagens e paisagens, convertendo palavras e frases em um filme mental que é “a versão do diretor”.
Ou seja, todo e qualquer texto só pode ser percebido pelo individuo a partir de uma versão criada em seu córtex que é exclusiva de cada leitor.
Isto porque qualquer texto passa, ao ser lido a provocar o estoque de informações acumuladas pelas memórias múltiplas, que compõe nosso acervo de memória geral.
O hemisfério esquerdo avança na leitura como um delegado das formas e das cátedras, policiando o texto de forma severa e crítica, muitas vezes tolhendo, em um texto de muitos erros, a ação leve e jovial do hemisfério direito, que mais irreverente, viaja na maionese do texto, sem se ater as questões gramaticais e ortográficas.
Por ai fica evidente que a atitude de quem lê um texto é fortemente influenciada pelo grau de desenvolvimento de cada hemisfério cerebral.
Quem é muito “cérebro esquerdo”, diante de um texto criativo e inovador, mas com muitos erros de forma, pode ter seu lado direito simplesmente aprisionado, não conseguindo alcançar a profundidade de uma mensagem de autor muito talentoso, mas pouco letrado.
Da mesma forma, quem é muito “cérebro direito”, pode ter sua viagem limitada ou mesmo boicotada pelo excesso de formalismo e prolixidade de um texto.
Um texto com excesso de esmero formal pode ser para estes como a narração de um filme monótono, pedante e complicado demais para servir de rampa para um mergulho no “mundo dos sonhos”.
Por isto é importante que cada autor busque o aprimoramento da sua escrita em vários aspectos sem, no entanto se deixar vencer pela tirania das regras da escrita formal.
A ditadura das cátedras tem matado muito mais autores talentosos ao longo dos tempos do que os piores regimes autoritários aos seus críticos e opositores.
Enquanto o segundo prende e mata o corpo físico, o primeiro liquida com idéias inovadoras, talentos, livre criação, produções culturais e artísticas.
O talento não pode abrir mão dos espaços de liberdade onde, numa antevisão do futuro, a arte e a cultura buscam e criam respostas para os impasses criados pela ditadura do conhecimento formal e pelo absolutismo das cátedras.
Este é o verdadeiro estado democrático, de direito do livre pensamento.

João Drummond