A visão do Peregrino


Diz-se que a verdadeira peregrinação começa quando a pessoa toma a decisão de fazê-la.
Os motivos declarados e racionais podem ser muitos e os mais variados, mas a motivação mais profunda é pessoal e intrasferivel.
É um tipo de decisão que é tomada na base do: “eu sinto que tenho que fazer isto”, e as ponderações lógicas e racionais são apenas explicações formais que utilizamos para nós mesmo, e para terceiros para se evitar polemicas.

A partir da decisão, passada a fase sobre: “porque fazer”, uma serie de providencias passam a ser exigidas naturalmente do peregrino, primeiramente em nível interno e depois de maneira documental.
 Quando e onde começar? Qual é o custo? De que vou precisar? Como me preparar? Onde conseguir recursos? Como resolver os problemas gerados pela nossa ausência? Como compensar as lacunas da nossa competência exclusiva?
Estas questões passam a fazer parte da rotina do peregrino e vão ser questionadas à medida que ele passa a revelá-las no circulo de familiares e amigos.
Tudo isto até momento da partida vai exigir um tempo de preparação e adaptação, onde as convicções do peregrino vão ser testadas ao extremo.
Mas na pratica seus pés já estão na estrada interna que se abriu e que escancarou na sua mente. Estrada esta que se afunila em direção a um horizonte imaginário e que começa a produzir já no presente suas conseqüências.
Tomar novo rumo, deixar tudo para traz tem um significado especial para quem se decide a pegar a estrada da peregrinação.
A busca por algo que faça mais sentido do que as conquistas corriqueiras que nos são sugeridas pelo modelo de civilização em que vivemos.
Os sonhos de consumo, os padrões de status, poder e riqueza, sucesso a moda capitalista, futuro garantido e velhice tranqüila.
Tudo isto passa a fazer parte de um universo em decomposição que mais se aproxima de uma forma mesquinha de vida, do que de realização pessoal.
 Vivemos numa rede social e somos peças de um quebra-cabeça, não podemos abrir mão de nossas responsabilidades.
Qualquer mudança em nossa posição pessoal induz um rearranjo na composição da estrutura da qual fazemos parte.
A quebra da inércia destes modelos gera resistência e desconforto. Causa incômodo e mal estar entre as pessoas a nossa volta e provoca novos desafios coletivos e individuais.
Esta é uma das mais fortes premissas da peregrinação: quebrar a zonas de conforto e provocar mudanças profundas em formas plasmadas e consolidadas de relacionamentos.
Não se trata de um rompimento com o passado e nem com nosso grupo social, mas uma mudança brusca na nossa forma de relacionar com as pessoas e com o mundo a nossa volta.
Se vamos conseguir promover estas mudanças só o Senhor dos Tempos e dos Espaços tem a resposta. Mas quem sabe, a nossa vontade expressa já não aponta para uma resposta?
Afinal a quem acredite que nossas vontades mais profundas são o negativo da realidade futura que deve ser impresso no mundo de causas e efeitos, e que somos Deuses e atores capazes de produzir e contracenar com o nosso destino.