Entrevista com a escritora Rosani Abou Adal

"A Academias de Letras estão totalmente ultrapassadas assim como inúmeras entidades existentes. O pensamento acadêmico é retrógrado, atende às necessidades políticas e não à arte. As academias precisam evoluir para acompanhar as mudanças do mundo. A participação das mulheres ainda é insignificante diante do universo literário feminino. Algumas abrigam medalhões competentes na sua área de trabalho. Em outras o que impera é o preconceito racial. Isto tem que mudar para se assumir uma postura condigna com a realidade"
                   
                                                  Rosani Abu Adal

José Afrânio Moreira Duarte


Rosani Abou Adal, filha de Simaan Antoun Abou Adal e Maria Massabki Abou Adal, nasceu em São Paulo em 17 de janeiro de 1960. Formada em jornalismo e publicidade e propaganda pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero. Colabora atualmente na imprensa, sendo fundadora e diretora do excelente jornal literário Linguagem Viva, juntamente com Adriano Nogueira.
Publicou os livros de poesias Mensagens do Momento, De Corpo e Verde e Catedral do Silêncio (Prêmio Ribeiro Couto da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro).
Além de colaborar com poemas e crônicas na imprensa brasileira, já teve trabalhos traduzidos no exterior nas revistas Rimbaud, Jallons (na França) e The Poet (nos Estados Unidos). Em Portugal tem poemas publicados nas antologias, bilingüe francês e português, Um Mundo no Coração e Reflexos da Poesia Contemporânea no Brasil, França, Itália e Portugal, organizadas por Jean Paul Mestas, Universitária Editora de Lisboa.
É membro da Academia de Letras de Campos do Jordão.
Tem verbetes no Dicionário de Mulheres, de Hilda Agnes Hüsner Flores, no Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras, de Nelly Novaes Coelho, e na Enciclopédia de Literatura Brasileira, de Afrânio Coutinho e J. Galante de Souza.

1- Existe ou não uma Literatura Feminina?

A Literatura Feminina sempre existiu apesar de ter ficado um longo período na geladeira e as escritoras no anonimato e na sombra dos homens.  Após esta lacuna vazia na história das nossas letras, as mulheres vêm se destacando na história da literatura brasileira e universal. Elas estão aprimorando técnicas, codificando novas linguagens e conquistando espaço no mercado editorial. Conseguiram se impor na sociedade e a literatura feminina alcançou novos horizontes.


2 – Você escreveu livros com belos poemas de cunho ecológico. O que você pensa sobre a ecologia?

A ecologia é tudo dentro da universalidade do tema. A minha obra é lapidada de ecologia porque essa é a minha verve poética. O que é anti-ecológico?  Respondo que tudo o é.  Não existe nada mais anti-ecológico que a fome matando milhares de seres humanos na Terra. A devastação da própria espécie, do meio-ambiente, dos animais, da vida, do amor e da alma são anti-ecológico. Não basta apenas lutar e erguer bandeiras em prol da ecologia, pois temos que despoluir a mente dos homens e principalmente daqueles que governam todas as nações do planeta. O nosso planeta caminha lentamente para uma devastação irreversível gerada pela insensatez humana. Com toda a tecnologia disponível não investiram em técnicas sadias ao meio ambiente para se gerar novas energias.  Cada vez mais é produzido embalagens em spray (aerosol) que afetam a camada de ozônio. O pulmão do planeta é atômico-nuclear em conseqüência dos milhares de lixos atômicos produzidos, dos vazamentos de óleo nas águas marinhas, das armas químicas, dos agrotóxicos, dos mísseis, dos degradáveis, do gás carbônico produzidos pelos veículos de transporte e das usinas nucleares. A vida, o homem, a ecologia e o planeta merecem ser tratados com mais dignidade.

3 – Como surgiu a feliz idéia de fundar o jornal Linguagem Viva?

Linguagem Viva foi fundado em setembro de 1989 por mim e Adriano Nogueira. A idéia surgiu porque queríamos fazer algum agito no meio literário, que estava muito parado. Numa sexta-feira, tomando chopinhos no restaurante do Boulevard Hotel, na Avenida São Luís, em São Paulo, decidimos fazer um jornal de literatura. Adriano nessa época morava em São Paulo e nos fins-de-semana em Piracicaba, sua terra natal. Na segunda-feira retornou de lá com a notícia de que estava tudo certo para a impressão do jornal e que havia conseguido até uns anunciantes. Então fizemos a primeira reunião de pauta com um grupo de aproximadamente vinte pessoas. Na segunda reunião o grupo ficou reduzido à metade e na terceira em apenas nós dois. Não desanimamos e arregaçamos as mangas para trabalhar. A idéia era algum nome com a palavra viva e numa reunião com o departamento de criação da Agência de Propaganda Integrada surgiu o nome Linguagem Viva. O jornal nunca interrompeu a periodicidade nos seus 14 anos de circulação mensal.

4 – Você é filha de pai e mãe sírios. Houve alguma influência da cultura oriental em sua poesia?

A Cultura Árabe e Oriental influenciaram muito a minha poesia porque o sangue que corre nas minhas veias é árabe. Sou uma espécie de beduína tropical, um misto de deserto, matas atlânticas e sertão. A cultura e os costumes árabes estão presente na minha obra, principalmente no livro Catedral do Silêncio em que a linguagem metafórica é voltada para as minhas raízes. É uma busca do amor e encontro do mesmo no poema Fertilidade.  Montada em meu camelo alado encontro o amor nos Montes Líbanos, que estava a me esperar segurando firme nas mãos a taça da fertilidade.

5 - Qual o livro de poesia de outra autora que você gostaria de haver escrito?

Estou feliz com os livros que já escrevi. Não quero ser igual a ninguém e nem mesmo escrever o que os outros já escreveram. O que pretendo é evoluir cada vez mais e aperfeiçoar a técnica, a linguagem poética e transcender a própria poesia dentro da minha estética. No Brasil existem muitas poetas de qualidade que têm obras que aprecio e já li mais de uma vez porque entraram na minha alma e ficaram dentro de mim. O difícil de citar nomes é esquecer de algum importante.  Por esta razão fica um parêntese em aberto.

6 – Parece-lhe que a poesia tem de ser engajada politicamente?

Penso que o engajamento político é uma seqüência natural. A partir do momento em que o poeta escreve sobre a realidade que ele transcende, a sua obra obviamente terá um cunho político de fundo. Afinal vivemos num mundo em que existem abismos na desigualdade social, onde os poderosos ditam as suas regras mesmo que para isto tenham que matar e devastar a sua própria espécie.  O engajamento político é o espelho do mundo em que vivemos. O poeta mesmo não fazendo o uso de uma linguagem de cunho político propriamente dito, o seu trabalho automaticamente será engajado politicamente e a metáfora da linguagem vem protestar contra as desigualdades e as insatisfações com a maneira de ver o mundo. O discurso poético direta ou indiretamente é entre aspas fruto de um engajamento político.

7 – Como encara a preocupação com formas inovadoras usadas nos poemas? Tais formas afastam a verdadeira poesia?

As formas inovadoras atualmente desenvolvidas por poetas modernos trazem faces novas da verdadeira poesia. O poetas modernos estão criando novas linguagens e estilos que estão dando mais vigor à poesia. O mundo está mudando a cada segundo e temos que acompanhar essa evolução com uma linguagem poética moldada à realidade que nos cerca. Temos que pensar nas próximas gerações que estão por vir. Todo artista que cria formas inovadoras geralmente não é compreendido na sua época e só irão entendê-lo posteriormente. Os poetas ainda têm muito que evoluir em se tratando de linguagens e técnicas poéticas para que sua obra se perpetue no tempo.

8 – As Academias de Letras estão ultrapassadas?

Estão totalmente ultrapassadas assim como inúmeras entidades existentes. O pensamento acadêmico é retrógrado, atende às necessidades políticas e não à arte. As academias precisam evoluir para acompanhar as mudanças do mundo. A participação das mulheres ainda é insignificante diante do universo literário feminino. Algumas abrigam medalhões competentes na sua área de trabalho. Em outras o que impera é o preconceito racial. Isto tem que mudar para se assumir uma postura condigna com a realidade.