Proclamação à Vida


Em certa hora vespertina de abril
(o vento entretido com adjetivos celestes,
ligas de bronze, cimento e cristais)
arrisco na fuligem da cidade
que se promete em sangue
o verbo explosivo da vida.
Este desdobrar em dois
A promessa secretamente anunciada
Num ventre de fêmea,
Quando nem sequer pássaros mais ambíguos
Arriscavam-se no espaço definitivo de uma gaiola;
Quando nem sequer flores
Ousavam com seus perfumes
Povoar longas avenidas
Com seus flertes efêmeros!
O mistério transpôs os limites
De todas as gramáticas,
Todos os vocábulos,
Explorando num tatear de brisa
A multiplicação das células
Enfim, tornadas, fogo.
Viajo a antevéspera de tuas formas;
Teus braços, teus olhos, que um dia se abrirão
ao contorno das coisas domésticas,
Das estrelas, do tédio e da febre.
Teus lábios, hálito morno de flores,
Um dia obrigado ao silêncio
De discursos jamais recitados.
A força de tuas proteínas, os minerais
que compõem teu sangue, o poema que antecipa
teus primeiros passos,
como a valsa embriagada das constelações.
Meu filho –
Como poderei com forja rude onde aprendi o ódio
Ensinar-te o sorriso dos deuses?
Sinto teu coração repicar
O sino de um templo sagrado.
Sinto teus movimentos
No universo finito, onde lapidas
O brilho embaraçado do sol.
Sinto todo teu corpo
Que se prepara à moda dos guerreiros
Para saltar na praça central da república.
Ouço o sangue que percorreu tuas veias
E retornou em circuito de labirintos
Ao centro físico de minhas angústias.
Trazia uma linguagem, que nenhum sábio
Ousou traduzir, nos manuais primitivos
Da ciência que nos tornou anfíbios.
Em silêncio ouço teu canto de vida.
Vem meu filho. Poderei dar-te o dom da palavra.
Iniciá-lo no manejo de máquinas
Que jamais compreendemos
E, no entanto
Compõe nossa mesa, na refeição matutina.
No diálogo mudo
Implantado em todos os canais de fala humana.
Se domingo, iremos ao parque dos leões.
Ao gabinete dentário, a um baile de máscaras.
Convém que entendas certas minúcias desta comédia.
Cruzaremos avenidas polvilhadas de símbolos,
Regras cívicas, fumaça e contravenções penais.
Cruzaremos terras minadas com o napalm, injustiça e medo.
Festejaremos todas as datas autorizadas no calendário.
Fadas e pirilampos, meu filho, encontraremos no comércio
A título de liquidação!
Ainda assim eu te digo:
-Vem meu filho.
Vem me ensinar o sorriso dos deus.

 Frederico Ozanan Drummond